Leonardo Aboim Pires


Temas abordados:
Os efeitos do crash da Bolsa de Nova Iorque em Portugal em termos económicos e laborais. A Pandemia Covid-19.

Leonardo Aboim Pires

Leonardo Aboim Pires é licenciado em História e mestre em História Contemporânea pela NOVA - Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. É doutorando em Ciências da Sustentabilidade pelo Instituto de Ciências Sociais (ICS-UL). Investigador no projeto "ReSEED", um projeto de pesquisa liderado pela historiadora Dulce Freire, sediado na Universidade de Coimbra e financiado pelo European Research Council (reseed.uc .pt). É membro do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS20) e do Instituto de História Contemporânea (IHC-NOVA / FCSH). As suas áreas de investigação têm sido a história rural e agrária e a história ambiental, com especial foco na transformação social e no desenvolvimento económico dos espaços rurais entre os séculos XIX e XX em Portugal. Também desenvolveu estudos sobre corporativismo, interesses organizados e Estado.


1. Quais foram as consequências da crise de 1929, em Portugal, em termos económicos?

Ainda que Portugal não estivesse no centro das dinâmicas da economia global, sob vários pontos de vista, também sofreu os choques da crise que começou nos EUA.

A historiografia já mostrou que os impactos económicos foram curta duração, pouco intensos e atingiram sobretudo os sectores mais internacionalizados da nossa economia, como os vinhos ou as conservas de peixe. Convém não esquecer que quando ocorre o crash da bolsa de Nova York, Oliveira Salazar já era Ministro das Finanças e já iniciara o seu programa de reorganização económico-financeira. Ou seja, dois fatores blindaram o país a efeitos mais nocivos: a sua situação de economia periférica e a política conduzida por Salazar. Ainda assim, não se pode afirmar que Portugal viveu à margem dos efeitos da recessão e a questão do desemprego é demonstrativa disso mesmo.

A recessão e a degradação do comércio internacional levaram à adoção de medidas baseadas na autarcia e que os regimes autoritários que começavam a emergir na Europa foram favoráveis. A procura pela autossuficiência agrícola foi um dos objetivos principais, assistindo-se, nos primeiros anos da década a iniciativas que apontavam nesse sentido e também à criação de organismos responsáveis pela sua regulação. É assim que o corporativismo se instala como a ideologia económica dominante, ou seja, é uma consequência direta da crise que se vivia.


2. Que consequências teve esta crise no nosso país em termos laborais?

Em termos laborais, a crise dos anos 30 exacerbou a realidade do desemprego. Este foi sentido, de modo muito particular, nos meios rurais, mas também em algumas indústrias como a das pescas e construção civil. O desemprego rural era uma situação crónica. Quando as colheitas terminavam era sobretudo no sul de Portugal que um grande número de assalariados se via sem ocupação potenciado casos de mendicidade. São vários os relatos de situações de fome e escassez que, apesar da censura em vigor, alguma documentação, sobretudo dos governos civis, mostra como as populações sentiram, de forma muito intensa, a crise. A desproteção social, do ponto de vista da ação do Estado, era notória, estando os ténues cuidados a cargo das misericórdias ou instituições congéneres.

O impacto do desemprego foi de tal observado que o governo promoveu, em 1931, a realização de um inquérito sobre esta situação. Perante os resultados obtidos, foi criado o Comissariado do Desemprego, em 1932, um organismo que, em estreita colaboração com outras entidades estatais, arranjava formas de empregar os trabalhadores sem ocupação. A face mais visível da sua atuação foi um vasto programa de obras públicas, intervenções e melhoramentos em vários pontos do país. O Comissariado tinha ainda uma vertente assistencialista, fornecendo alimentação e roupas aos desempregados.


3. O que se alterou na sua vida com a pandemia do Covid 19?

Na minha vida, a pandemia refletiu-se, sobretudo, na mobilidade, na sequência dos dois confinamentos decretados pelo governo. Esse terá sido talvez o maior impacto na minha vida, na medida em que, do ponto de vista do trabalho, mas também pessoal, foi impossível o contacto direto com família, amigos e colegas, algo que apenas foi superado com recurso a videoconferências e reuniões online. Ainda de referir que, ainda que não tenha contactado diretamente com a doença, algumas pessoas que me são próximas estiveram infetadas, onde se incluem também óbitos.


4- Que efeitos tem tido esta pandemia, na sua vida, em termos laborais?

Em termos laborais, a pandemia revelou-se como um dos maiores entraves ao desenvolvimento da pesquisa para a minha tese de doutoramento em Ciências da Sustentabilidade. O encerramento dos principais serviços onde poderia proceder à recolha e tratamento de informação, isto é, arquivos e bibliotecas, atrasou substancialmente o cronograma estabelecido previamente.

No período da pandemia, fui investigador num projeto do European Research Council e estes problemas foram sentidos igualmente por todos os membros da equipa. Apenas devido à digitalização de algumas obras e documentos acessíveis nos websites de algumas bibliotecas foi possível avançar o trabalho.


5- Na sua opinião, quais têm sido os efeitos desta pandemia na economia do nosso país?

A pandemia mostrou as fragilidades do modelo económico seguido até agora, baseado numa especialização produtiva assente no turismo e em focos de emprego sazonal, acentuando a excessiva dependência do sector terciário. As empresas de alojamento e restauração foram fortemente abaladas, com impactos muito negativos no volume de negócios que nem a ajuda concedida pelo governo conseguiu por cobro. Também as empresas de transportes, agências de viagem e operadoras turísticas viram os seus lucros diminuírem brutalmente. Basta observar a quase total ausência de voos que se verificou na TAP nos primeiros meses de pandemia, em 2020. Tudo isto se refletiu na queda do PIB, no aumento do desemprego (com situações de despedimento coletivo) e na retração do consumo.

As soluções para a retoma têm de compreender todas estas dimensões, o que se adivinha como um processo gradual e complexo. A chamada "bazuca" e o Plano de Recuperação e Resiliência são o ponto de partida para isso.

Também me parece que os fundamentos da coesão social e territorial foram colocados em causa, uma vez que, alguns dos piores episódios desta pandemia, nomeadamente os surtos nos lares, mostraram uma bipolarização entre as zonas urbanas com cuidados de saúde mais próximos e as zonas rurais despovoadas e cujo acesso às unidades hospitalares se revela muito mais complicado.


6- Que lições podemos retirar desta pandemia?

Gostaria de focar três pontos.

A primeira grande lição que se pode retirar é a importância do Serviço Nacional de Saúde. Caso não existisse um serviço público de cuidados de saúde as consequências desta pandemia poderiam ter sido muitíssimo mais devastadoras. Por isso, em minha opinião, essa é um elemento fundamental na análise que se pode fazer desta situação e, no futuro, dever-se-á salvaguardar o SNS e todos os que nele estão inseridos, utentes e profissionais de saúde. Ainda assim, há aspetos a melhorar, sobretudo no interior do país.

O segundo aspeto que merece destaque é a importância que se deve dar à investigação científica, em todas as suas vertentes. Sem a produção de conhecimento e sem o fornecimento de mecanismos que a suporte, seja financiamento, sejam infraestruturas, o combate à pandemia seria muito mais demorado e com custos acrescidos em termos humanos.

Em terceiro lugar, o lugar que a componente digital ocupou nestes meses parece-me irreversível, sendo esse um dos maiores impactos que a Covid 19 trouxe à sociedade. A aposta nos serviços digitais é o caminho que deve ser trilhado nas próximas décadas embora tenha de ser aperfeiçoada. No meu caso particular, na componente da transição digital, inscrita no PRR, deveria estar também presente a necessidade de estruturas digitais eficazes no âmbito dos catálogos bibliográficos e da digitalização de fundos documentais de arquivos.


Entrevista realizada por: Ana Matilde Reis

Coordenação/Tutoria: Professora Ana Sofia Pinto