Fabrício Pinheiro


Fabrício Pinheiro

Fabrício Pinheiro é Sacerdote diocesano na Diocese de Lamego.


Tema abordado:

- A Pandemia Covid-19.


1. Qual a sua profissão?

Não posso nem devo considerar o meu trabalho como uma profissão, mas sim comouma vocação. Porque profissão é aquilo que desejamos ser e a vocação é osentimento de que Alguém nos chama a uma missão mais específica. Sou sacerdote diocesano desde julho de 2015 a exercer a minha missão na Diocese de Lamego, mais concretamente nas Comunidades Paroquiais de Fornelos, Moimenta e Travanca, na Zona Pastoral de Cinfães do Douro.


2. O que alterou na sua vida com a pandemia Covid-19?

A pandemia da Covid-19 veio alterar a vida de toda a gente, social e mundialmente. Na minha vida, como em tantas outras mudaram os ritmos de vida, mas acima de tudo a forma de ver as coisas e as pessoas. Vivemos numa sociedade exigente, mas que no fundo pouco ou nada se importa com aqueles que estão à sua volta. A nível pessoal tive oportunidade de me interiorizar mais e reconhecer que há muito para fazer e para mudar, não só em mim, mas acima de tudo nas Comunidades e na Igreja a quem sirvo de coração pleno.


3. Que efeitos tem tido esta pandemia, na sua vida, em termos laborais?

Em termos laborais esta pandemia veio afetar muito a missão do sacerdote. Falo apenas por mim, mas conhecendo a realidade de outros colegas. A missão do padre tornou-se mais importante e mais urgente, essencialmente na forma de nos aproximarmos dos outros, de levar Cristo aos outros. Como sabemos as Igrejas encerraram, cumprindo com as normas da Direção Geral de Saúde. Isso fez com que muitos cristãos se afastassem, fez com que muitos se acomodassem nas suas casas. Claro que isto implica muito em termos laborais. Se não tivermos pessoas não conseguimos exercer a nossa missão de sacerdotes, porque o sacerdote, sendo pastor à semelhança do Bom Pastor, precisa de um rebanho para guiar.


4. Na sua opinião, quais têm sido os efeitos desta pandemia na economia do  nosso país?

Os efeitos da Covid-19 têm sido bastante debatidos nos últimos tempos, como vamos dando conta pelas notícias. Não só a nível do nosso país, mas a nível mundial. Esta pandemia veio trazer grandes estragos na vida das pessoas que, economicamente, estão com dificuldades de viver. O mundo parou por completo! E, penso que, com esta paragem mundial todos os setores laborais sofreram de tal modo que alguns já não terão, novamente, a capacidade de seguir em frente. Isto causa desemprego e dificuldades a tantas e tantas famílias que dependiam dos seus trabalhos. Não será fácil recuperar e colocar tudo como era "antes", pelo menos a curto prazo. Mas pelo menos que possamos tirar lições de vida para esta pandemia, pois a qualquer momento da nossa existência pode vir "algo" que nos destrua por completo. No entanto é preciso ter a esperança de dias melhores que, com muita luta e esforço, virão como os raios de sol quando este nasce para um novo dia.


5. Que lições podemos retirar desta pandemia?

Podemos tirar diversas lições desta Pandemia. Mas, uma que a mim me toca pessoalmente é o cuidado do outro. Há tempos escrevi em pequeno livro com o título "Estre(linhas) da Fé em tempos de Pandemia" (o tempo do confinamento permitiu-me isso) em que eu refletia no seguinte: Conviver com aquele que é diferente é uma arte. Uma arte que exige uma paciência constante, porque o outro é sempre o outro. Sabemos que nem sempre é fácil conviver com quem pensa diferente de nós. O outro será sempre diferente de nós. Com as suas falhas e virtudes que fazem parte da sua formação e da sua história. Aquilo que não se cuida acaba por se perder. Aquilo que se perdeu precisa de tempo para ser reencontrado. A nossa existência é semelhante à da fonte e à do rio. Ao longo da nossa vida entregamo-nos a muitos sentimentos contrários à nossa natureza. Perdemo-nos nas poluições de vários pensamentos e entregamo-nos a poluições de outros pensamentos e sentimentos que destroem aquilo que somos. O projeto de limpeza da nossa impureza sentimental é tão importante como a água da chuva para a terra depois de um longo período de seca. Descobrir a fonte que matará a nossa sede é como descobrir que não nascemos para a poluição, que nos afasta de nós mesmos, mas nascemos para sermos rios limpos, caminhando para o grande mar.



Entrevista realizada por Ana Matilde Reis
Coordenação/Tutoria: Professora Ana Sofia Pinto