Crise 1929

Os Efeitos da Grande Depressão em Portugal

A crise de 1929 nos EUA

"O meu pai acabou por dizer-me:
- Jack, tenho uma má notícia para te dar. Sabes que houve o crash da Bolsa?
Explicou-me depois, escondendo a cara entre as mãos, que o mercado das ações se tinha afundado...
- Tinha-te comprado três mil dólares de ações que não valem agora absolutamente nada. E há outra coisa: eu próprio fui duramente atingido. Estava a expandir-me, tinha começado a construir uma grande oficina. Mais de cem mil dólares... que pedi a um banco. Desde o crash que não param de perseguir-me com exigências.» (...) Depois disso, resolvi pôr-me à procura de trabalho por toda a Geórgia, cidade a cidade. Em toda a parte era a mesma resposta: se pudessem seria um prazer, mas todas as oficinas estavam a despedir operários (...). Um dos patrões disse-me:

-Meu caro, dizes que trabalharias tanto quanto eu te pedisse em troca de alojamento, de comida (...). O pior é que, antes de ti, já por aqui passaram trezentos tipos que me propuseram exatamente a mesma coisa."

James Cain, Double Indemnity


"Os pequenos fazendeiros observam como as dívidas sobem insensivelmente. Cuidaram das árvores, sem vender a colheita, podaram e enxertaram e não puderam colher as frutas. Carradas de laranjas são atiradas para o chão. Homens armados de mangueiras derramaram querosene por cima das laranjas. O cheiro da podridão enche o país. Queimam café como combustível de navios. Queimam o milho para aquecer: o milho dá um lume excelente. Atiram batatas aos rios, colocando guardas ao longo das margens, para evitar que o povo faminto intente pescá-las. Abatem porcos, enterram-nos e deixam a putrescência penetrar na terra."

John Steinbeck, As Vinhas da Ira

Após uma fase de prosperidade económica proporcionada pela dependência dos capitais e dos empréstimos no pós-guerra e aplicação do método de trabalho designado pelo nome de Taylorismo seguiu-se na economia americana uma fase depressionária.

O crash de 1929, foi provocado pela superprodução de bens de consumo e pela especulação bolsista. A facilidade de crédito proporcionada pelo bancos permitiu manter, de forma artificial, o poder de compra americano. A grande generalidade das transações de imóveis, automóveis e eletrodomésticos era efetuada com base no crédito e em pagamentos feitos em prestações. Também era através do crédito que eram adquiridas as ações que os americanos detinham nas empresas. Confiantes na solidez da economia, muitos americanos investiam na Bolsa. No entanto, as cotações das ações não correspondiam à situação real das empresas.

"O pânico instalou-se em 24 de outubro, a "quinta-feira negra", quando 13 milhões de títulos foram postos no mercado a preços baixíssimos e não encontraram comprador. A 29 de outubro, foi a vez de 16 milhões de ações conhecerem o mesmo destino. A catástrofe ficou conhecia como o crash de Wall Street. Nos meses que se seguiram, centenas de milhares de acionistas conheceram a ruína. Não havia quem comprasse as suas ações, transformadas em meros papéis sem valor." (1)

O crash teve efeitos sobre os acionistas e sobre todos os setores económicos. Os agricultores devido ao excesso de produção baixaram os preços e destruíram as produções. Os bancos, impossibilitados de reaverem os créditos que haviam concedido, foram à falência. As empresas, com stocks acumulados e sem crédito bancário, viram-se obrigadas a reduzirem os preços e a quantidade da produção; muitas empresas declararam falência e despediram a sua mão-de-obra e os cidadãos desempregados retraíram as suas compras.

A nível social, a crise teve efeitos catastróficos: as populações em ruína percorriam longos percursos à procura de emprego deparando-se com fábricas fechadas ou que mantinham a laborar os trabalhadores estritamente necessários. "Os salários sofreram cortes drásticos, entre operários e colarinhos brancos. Homens desesperados ofereciam-se a preços irrisórios para o desempenho de tarefas frequentemente desqualificadas. Sem segurança social, as pessoas formavam filas intermináveis nas ruas à espera de refeições oferecidas pelas instituições de caridade. Às portas da cidade cresciam os bairros de lata, pois não havia dinheiro para custear rendas de casa. Neste quadro desolador e negro, a delinquência, a corrupção e o "gangsterismo" proliferavam. O sonho americano parecia desmoronar-se." (2)

A crise americana de 1929, desencadeou uma depressão económica a nível mundial devido à dependência económica da Europa (retirada de capitais americanos e termo da concessão de créditos) e dos países subdesenvolvidos (exportação de produtos agrícolas e matérias-primas) (3). Por todo o mundo fizeram-se sentir os efeitos da crise americana: desemprego, redução de salários, falências e quebras de produção. Apenas a União Soviética, porque tinha um sistema económico diferente, não foi afetada pela mundialização da crise. 

A Crise de 1929 em Portugal

"Ficaram sem ocupação cerca de 100 homens, na maioria chefes de família. A sua atitude era de súplica. Mendigavam trabalho, alegando que se viam rodeados de filhos sem ter com que lhes mitigar a fome."

"Crise dos rurais" em Santarém, Diário de Notícias, 22 de setembro de 1930.

" (Em Setúbal) já voltaram do Alentejo os trabalhadores que para lá tinham ido fazer as ceifas. Não sabemos onde aqueles desgraçados hão de empregar a sua atividade para não morrerem de fome."

Diário de Notícias, 10 de julho de 1931.


"A crise financeira de 1929 e a Grande Depressão que lhe sucedeu (1929-1933) teve, segundo a historiografia, efeitos breves, tardios e pouco intensos em Portugal. Embora a recessão económica e o verificado aumento do desemprego, o grau modesto de internacionalização e a pequena abertura da economia portuguesa, por um lado, e a estabilidade monetária e financeira alcançada nos anos anteriores, teriam poupado o país aos efeitos mais agressivos da grave crise internacional. Este foi um período em que confluíram grandes transformações na sociedade portuguesa: a institucionalização do Estado Novo; o crescimento do protecionismo e a transformação das relações económicas externas e coloniais, com impactos na agricultura e na indústria; o ensaio de novas medidas de assistência e previdência social, integradas na construção da organização corporativa; e a afirmação de um nacionalismo cultural e institucionalizado, aliado à propaganda, em concorrência com outras correntes literárias e artísticas, num ambiente de massificação da cultura."

Fonte: https://plataforma9.com/congressos/crise-de-1929-e-grande-depressao-em-portugal-dinamicas-globais-e-impactos-locais.htm

Os efeitos da Grande Depressão no nosso país, apesar de brandos se os compararmos com os de outros países, provocaram consequências na economia e na sociedade portuguesas. No período da ocorrência do crash da Bolsa de Nova Iorque, António de Oliveira Salazar ocupava o cargo de Ministro das Finanças e tinha dado início a um programa de reorganização financeira e económica. Segundo o historiador Leonardo Alboim Pires, dois fatores que contribuíram para que a crise não fosse mais nociva no nosso país foram a sua situação de economia periférica e a política conduzida por Salazar. No entanto, Portugal não ficou isento dos efeitos da recessão e a questão do desemprego é representativa das consequências da Grande Depressão no nosso país. Os investigadores Alfredo Marques, Fernando Rosas, Álvaro Garrido, José Luís Cardoso e Pedro Lains, defendem que os impactos da crise de 1929, em Portugal, foram "relativamente tardios, rápidos, pouco intensos e diferenciados por vários setores" (4). Estes historiadores são unânimes ao concordarem que Portugal não ficou imune ao crash. Os efeitos da Grande Depressão no nosso país fizeram-se sentir em subsetores direcionados para o comércio externo, ou seja, nas exportações portuguesas de origem agroflorestal como o azeite, as hortícolas, as frutas, a cortiça, o vinho e, também, no ramo industrial, nomeadamente, nas conservas de peixe. Assistiu-se a uma quebra e, posteriormente, a uma estagnação de exportações de produtos oriundos do setor primário com o nosso parceiro comercial, o Reino Unido. Os agricultores depararam-se com uma desvalorização dos seus produtos agrícolas. A "crise laboral da lavoura" fez-se sentir sobretudo em distritos como Beja, Évora, Portalegre, Santarém e Setúbal.

Em agosto de 1931, António de Oliveira Salazar recebeu uma carta do Arcebispo de Évora, D. Manuel Mendes da Conceição Santos, na qual pedia uma solução para a resolver o "gravíssimo problema dos desempregados." Nesta carta é mencionado que, passado o período das colheitas, "não tardará que pelos campos e pelas povoações comecem a vaguear às dezenas e às centenas trabalhadores desocupados a pedirem esmola, visto não terem trabalho para ganharem o pão de cada dia" (5). O periódico "Gazeta de Albergaria" refere que o número de desempregados atingia as 195 mil pessoas, 65 mil das quais trabalhavam na agricultura.

O encerramento dos mercados importadores de mão-de-obra portuguesa, essencialmente para o Brasil, contribuiu para o agravamento do desemprego. No artigo intitulado "A crise de 1929 e os seus efeitos na economia portuguesa", o historiador Fernando Rosas refere que em 1929, o número de emigrantes para o Brasil era de 29.792. Volvidos dois anos, este número diminuiu para 2541 devido à crise de trabalho a nível mundial. Para além do aumento do desemprego, essencialmente, nas zonas rurais, assistiu-se, também, a uma quebra das remessas dos emigrantes.

De forma a aprofundar os meus conhecimentos sobre os efeitos da Grande Depressão em Portugal entrevistei os historiadores Alice Samara e Leonardo Alboim Pires. Convido-vos a ouvir e ler as entrevistas supracitadas.

(1)· Célia Pinto do Couto, Maria Antónia Monterroso Rosas, Um Novo Tempo da História, Parte 1, História A, 12.º ano, Porto, Porto Editora, 2015, pág.109. (2)· Ibidem, pág.110. (3)· "Na América Latina, o café dependia do mercado norte-americano, da sua capacidade de consumo e dos seus preços; as bananas eram outro grande negócio (...) mas a crise de 1929 estalou sem avisar. Os preços do café e da banana desabaram e o volume de vendas teve a mesma sorte. As expulsões de camponeses redobraram com uma violência impetuosa, o desemprego alastrou aos campos e às cidades e os vencimentos dos funcionários baixaram para metade nas Honduras, na Guatemala e na Nicarágua. "- E. Gaheano, Les Veines Ouvertes de L"Amerique Latine. (4)· Alfredo Marques, Política económica e desenvolvimento em Portugal (1926-1959), Lisboa, Livros Horizonte, 1988; Fernando Rosas, O Estado Novo nos anos trinta (1928-1938), Lisboa, Estampa, 1986; Álvaro Garrido, O Estado Novo português e a institucionalização da economia nacional corporativa, Estudos do Século XX, nº10, págs. 297-316, 2010; José Luís Cardoso, Ecos da Grande Depressão em Portugal: relatos, diagnósticos e soluções, Análise Social, nº 203, vol. XLVII, págs. 370-400, 2012; Pedro Lains, Portugal e a Grande Depressão. História, ano XXI, nº18, págs. 30-39, 1999. (5)· Arquivo Nacional da Torre do Tombo - Arquivo Salazar, PC-11, cx.560, capilha 4 "Desemprego no Distrito de Évora", fl.45. 

Ecos da Grande Depressão em Portugal: relatos, diagnósticos e soluções

https://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1341933298W9eCC7mw8Sp95GF9.pdf

A Grande Depressão e o seu impacto económico e social

https://www.rtp.pt/play/estudoemcasa/p7905/e511878/historia-a-12-ano

A Crise de 1929 e a grande depressão

https://ensina.rtp.pt/artigo/crise-1929-grande-depressao/


O peso da crise. Grande Depressão e desemprego rural em Portugal (1929-1932). 

por Leonardo Aboim Pires


Entrevistas

Nesta entrevista, a historiadora Alice Samara explica:

- As causas e consequências da crise económica e financeira de finais do século XIX. As condições de trabalho neste período da história de Portugal.

- As consequências políticas, económicas e sociais da participação de Portugal na 1.ª Guerra Mundial. O mundo laboral é também alvo de análise.

- Os efeitos do crash da Bolsa de Nova Iorque em Portugal. (a partir de 24:04)