António Manso


António Manso

O meu tio tem 49 anos e é professor há 24. Ao longo da sua carreira, para além da lecionação. tem desenvolvido e realizado outro tipo de tarefas e funções, nomeadamente, nos últimos anos tem exercido cargos de gestão e administração educativas.


Tema abordado:

- A Pandemia Covid-19.


1. Conte-me um pouco sobre si. Qual é a sua profissão, o seu percurso?

Tenho 49 anos de idade e sou professor há cerca de 24 anos. Ao longo da minha carreira, para além da lecionação, tenho desenvolvido e realizado outro tipo de tarefas e funções, nomeadamente, nos últimos anos tenho exercido cargos de gestão e administração educativas.


2. O que se alterou na sua vida com a pandemia do Covid-19?

Ninguém esperava, nos dias que correm, que uma pandemia mostrasse à humanidade o quão frágil ainda é, apesar de todos os avanços civilizacionais sentidos ao longo dos tempos.

Tal como para todas as pessoas em qualquer ponto deste planeta, também para mim esta pandemia veio alterar o modo de vida atualmente implementado, esperemos que apenas de forma temporária.

Para mim, a maior alteração que senti foi, sem dúvida, a aparente perda daquilo a que chamamos de liberdade. De repente, ficámos condicionados nas nossas deslocações, sabendo de antemão ser um mal necessário para o controlo efetivo desta pandemia.

Por outro lado, a inibição de ajuntamentos para além daquilo que são os núcleos familiares mais próximos, levou-nos a um enorme esforço afetivo, emocional e social.

Penso que se o retomar da nossa vida "normal" parece cada vez mais próximo, apesar de alguns constrangimentos sentidos, e com isso a vivência da nossa liberdade, no sentido mais amplo do termo, parece mais evidente e sentida, os impactos desta pandemia ao nível emocional, afetivo e até social vão perdurar ainda por muitos anos, infelizmente com consequências que ainda não se conseguem antecipar e prever.


3. Que efeitos tem tido esta pandemia, na sua vida, em termos laborais?

Penso que, se me for permitido afirmá-lo, eu fui um daqueles profissionais que também sempre esteve na linha da frente do combate à pandemia atualmente vivida. Pode ter passado completamente despercebido à maioria das pessoas e dos órgãos de comunicação social, mas as escolas estiveram sempre abertas e a funcionar durante os períodos mais críticos desta pandemia.

Para além da implementação de um modelo de Ensino à Distância em tempo recorde, com um esforço enorme de docentes, alunos e pais e encarregados de educação, a escola recebeu, presencialmente, alunos filhos de profissionais de serviços essenciais decretados no âmbito desta pandemia e, paralelamente, forneceu dezenas de refeições diárias a alunos carenciados e agiu junto de outras entidades de cariz social para que famílias mais necessitadas pudessem ser auxiliadas neste período em que muitas perderam os seus rendimentos.

Esta significativa mudança completamente inesperada, a qual continua o seu caminho, acarretou um enorme esforço emocional e até físico no desempenho das minhas funções, mas o grupo reduzido de pessoas com quem trabalhei diariamente e de forma presencial, foi capaz de gerir de uma forma muito profissional e coerente todas as necessidades sentidas, apoiando-nos uns aos outros e reforçando os laços de amizade existentes.

Vistas as coisas de outra perspetiva, sinto-me um homem abençoado, pois mesmo durante os períodos mais críticos desta pandemia sempre tive a oportunidade de trabalhar, mesmo correndo riscos mais ou menos presentes, mas que sempre foram por mim assumidos de uma forma completamente altruísta em benefício de um bem maior que foi o superior interesse dos meus alunos.


4. Na sua ótica, quais têm sido os efeitos desta pandemia na economia do nosso país?

Não querendo parecer pessimista, julgo que esta pandemia já expôs enormes problemas económicos em Portugal e no mundo. Esta pandemia afeta todos os países do mundo de uma forma transversal, sem olhar à geopolítica ou aos poderes económicos, militares ou religiosos instituídos.

A globalização em que o nosso mundo está mergulhado é recíproca nos seus efeitos, sejam eles bons ou maus.

Tal como a história nos mostra, os povos mais bem preparados económica e socialmente, provavelmente ultrapassarão esta crise mais rapidamente e de uma forma mais sustentada e sustentável, enquanto que os países mais pobres e dependentes dos outros, certamente, sentirão um prolongar desta crise por muitos anos, afetando as próximas gerações. Infelizmente, penso que Portugal se encontra no segundo grupo de países que atrás referi, pelo que apenas com um enorme esforço e uma enorme resiliência poderão os portugueses tentar minimizar os impactos económicos, sociais, emocionais e outros que esta pandemia acentuou ou originou.


5. Que lições podemos retirar de todo o percurso desta pandemia?

Quero acreditar que, tal como em outras pandemias ou catástrofes vividas anteriormente, o ser humano saberá retirar as necessárias aprendizagens para que, no futuro, os impactos de situações deste género possam ser antecipados, minimizados ou até evitados.

Para que estas lições sejam retiradas é necessário que os governantes e políticos em todo o mundo tenham a capacidade e a sabedoria de antever e perceber que só de uma forma equilibrada, sustentada e sustentável será possível garantir os direitos a cuidados de saúde, de educação, de trabalho e de assistência, entre outros, a todas as pessoas.

Outra lição que poderemos retirar dos tempos atualmente vividos é que apenas com a união de todos se conseguem ultrapassar os obstáculos com que nos deparamos, ou seja, o sentido de pertença a uma comunidade que se interajuda é essencial para que povos ou países mais pobres ou menos desenvolvidos tenham acesso aos bens, sejam eles quais forem, que mitiguem os efeitos e os impactos que, esta ou qualquer outra pandemia, origina ou expõe de uma forma muito mais evidente.


Entrevista realizada por Ana Matilde Reis
Coordenação/Tutoria: Professora Ana Sofia Pinto